sexta-feira, 29 de agosto de 2008

(...)


Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!

E quando o navio larga do cais

E se repara de repente que se abriu um espaço

Entre o cais e o navio,

Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,

Uma névoa de sentimentos de tristeza

Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas

Como a primeira janela onde a madrugada bate,

E me envolve com uma recordação duma outra pessoa

Que fosse misteriosamente minha.


(...)


Passa, lento vapor, passa e não fiques...

Passa de mim, passa da minha vista,

Vai-te de dentro do meu coração.

Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus,

Perde-te, segue o teu destino e deixa-me...

Eu quem sou para que chore e interrogue?

Eu quem sou para que te fale e te ame?

Eu quem sou para que me perturbe ver-te?

Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro,

Luzem os telhados dos edifícios do cais,

Todo o lado de cá da cidade brilha...

Parte, deixa-me, torna-te

Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido,

Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto,

Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!),

Ponto cada vez mais vago no horizonte...,

Nada depois, e só eu e a minha tristeza,

E a grande cidade agora cheia de sol

E a hora real e nua como um cais já sem navios,

E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira,

Traça um semicírculo de não sei que emoção

No silêncio comovido da minh'alma...



Trechos de "Ode Marítima" - Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Minha Canção

'Dorme a cidade
Resta um coração
Misterioso
Faz uma ilusão
Soletra um verso
Lavra a melodia
Singelamente
Dolorosamente
Doce a música
Silenciosa
Larga o meu peito
Solta-se no espaço
Faz-se certeza
Minha canção
stia de luz onde
Dorme o meu irmão'


Os Saltimbancos.